A obesidade é hoje um dos problemas de saúde pública mais preocupantes no Brasil e no mundo: ela afeta quase um em cada quatro pessoas no nosso país! Longe de ser uma simples questão de falta de força de vontade, a obesidade é uma doença complexa e com múltiplos fatores. Compreender suas causas é dar um primeiro passo essencial para um tratamento adequado.
O que realmente define a obesidade?
Antes de explorar suas causas, é útil lembrar o que é a obesidade do ponto de vista médico. Ela é definida por um índice de massa corporal (IMC) maior ou igual a 30 kg/m², calculado dividindo-se o peso (em kg) pelo quadrado da altura (em metros).
| Categoria | IMC (kg/m²) |
|---|---|
| Peso normal | 18,5 – 24,9 |
| Sobrepeso | 25 – 29,9 |
| Obesidade moderada | 30 – 34,9 |
| Obesidade severa | 35 – 39,9 |
| Obesidade mórbida | ≥ 40 |
Mas o IMC sozinho não é suficiente: a localização da gordura também tem um papel importante. A obesidade abdominal (quando a circunferência da cintura é maior que 94 cm nos homens e maior que 80 cm nas mulheres, está associada principalmente a um riscos de desenvolver distúrbios cardiovasculares e metabólicos.
Na obesidade, a sua alimentação e o seu comportamento estão em jogo!
O ganho de peso acontece quando o corpo recebe mais energia do que consegue gastar. Mas isso não depende apenas da quantidade de comida (ingestão calórica) ou de exercício. Esse desequilíbrio também é influenciado por hábitos, rotina, emoções, ambiente, sono, estresse e pela facilidade de acesso a alimentos mais calóricos.
Causa da obesidade nº 1: uma alimentação desequilibrada
A evolução dos hábitos alimentares nas últimas décadas modificou profundamente nossa relação com a comida:
- Um fator importante é o tipo de alimento consumido no dia a dia. Alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gorduras e aditivos, costumam ser mais calóricos e menos saciantes.
- Além disso, porções muito grandes, comuns em produtos industrializados e no fast food, fazem com que a pessoa coma mais sem perceber. O mesmo acontece com os “beliscos” ao longo do dia, que muitas vezes aparecem em momentos de estresse, ansiedade ou tédio.
- Também existe a alimentação emocional, quando a comida passa a ser usada como forma de aliviar emoções difíceis.
Muitos desses alimentos são feitos para serem extremamente saborosos e fáceis de consumir, o que pode atrapalhar os sinais naturais de fome e saciedade do corpo.


Causa da obesidade nº 2: o sedentarismo
O sedentarismo também tem um papel importante no ganho de peso. Nas últimas décadas, passamos a nos movimentar muito menos no dia a dia. Isso aconteceu por vários motivos:
- mais pessoas trabalham sentadas;
- muitas passam diversas horas em frente a telas;
- a maioria se desloca menos a pé ou de bicicleta; e
- vários de nós dedicamos menos tempo à prática de atividades físicas.
Com menos movimento, o corpo gasta menos energia ao longo do dia. Quando isso se torna rotina, fica mais fácil acumular gordura corporal, especialmente na região abdominal.
Causa da obesidade nº 3: o sono e o estresse
Os dados científicos cada vez mais mostram que a falta de sono e o estresse crônico contribuem para o ganho de peso:
- Um sono insuficiente, com menos de 7 horas por noite, perturba a produção de leptina (o hormônio da saciedade) e de grelina (o hormônio da fome) o que aumenta o apetite.
- O estresse crônico eleva os níveis de cortisol, aumentando o armazenamento de gordura abdominal e o desejo por alimentos doces ou gordurosos.
Mas tem mais: fatores genéticos e biológicos na obesidade
A obesidade não é apenas fruto de comportamentos: a biologia desempenha um papel importante, muitas vezes subestimado.
Causa da obesidade nº 4: hereditariedade e genética
Estudos com gêmeos mostraram que a genética pode explicar entre 40% e 70% da variação do peso de um indivíduo para outro. Vários mecanismos estão envolvidos nisso:
- A genética também pode influenciar o ganho de peso: algumas pessoas têm variantes genéticas que afetam o apetite, a forma como o corpo gasta energia em repouso ou a tendência para armazenar gordura.
- Em casos mais raros, existem alterações em genes específicos (mutações), como o MC4R, que participa da regulação da fome e da saciedade. Essas alterações podem estar relacionadas a formas mais graves de obesidade, especialmente quando começam ainda na infância.
- Além disso, a influência familiar não acontece apenas pelos hábitos alimentares aprendidos em casa. Também pode existir uma predisposição metabólica herdada, que torna o controle do peso mais desafiador para algumas pessoas.
Causa da obesidade nº 5: os desequilíbrios hormonais
Algumas doenças endócrinas podem provocar diretamente ganho de peso:
- Hipotireoidismo: a tireoide funciona de forma mais lenta, o que pode reduzir o metabolismo do corpo.
- Síndrome de Cushing: excesso de cortisol, um hormônio ligado ao estresse, que pode favorecer o acúmulo de gordura principalmente na região abdominal.
- Síndrome dos ovários policísticos: também pode estar associada ao ganho de peso em mulheres, especialmente por sua relação com a resistência à insulina.
- Resistência à insulina: o corpo passa a ter mais dificuldade para usar a glicose de forma adequada. Com isso, o pâncreas produz mais insulina, o que pode facilitar o armazenamento de gordura.
Causa da obesidade nº 6: o microbioma intestinal
A relação entre o intestino e o ganho de peso também tem sido cada vez mais estudada.
O microbioma intestinal é o conjunto de bactérias que vivem no nosso intestino e ajudam em várias funções do corpo, como digestão, metabolismo e até na comunicação entre intestino e cérebro.
Alguns estudos sugerem que certos perfis de microbiota podem fazer o corpo aproveitar mais calorias dos alimentos ou influenciar sinais de fome e saciedade.
Quando há um desequilíbrio nessas bactérias, chamado disbiose, isso pode contribuir para alterações no metabolismo e, em alguns casos, favorecer o ganho de peso.
Perder peso custa menos do que você imagina!
Outras causas: medicamentos e a influência do ambiente
Muitas vezes, quando falamos sobre ganho de peso, pensamos apenas em alimentação e atividade física, mas existem também fatores externos que podem influenciar esse processo.
Causa da obesidade nº 7: medicamentos obesogênicos
Alguns tratamentos médicos podem causar ganho de peso como efeito colateral:
| Classe medicamentosa | Exemplos |
|---|---|
| Antidepressivos | Paroxetina, Mirtazapina |
| Antipsicóticos | Olanzapina, Clozapina |
| Corticoides | Prednisona em uso prolongado |
| Antiepilépticos | Valproato de sódio |
| Antidiabéticos | Insulina, Sulfonilureias |
Nunca se deve interromper um tratamento sem orientação médica, mas é possível conversar com o médico caso seja observado um ganho de peso acentuado.
Causa da obesidade nº 8: os disruptores endócrinos
Os disruptores endócrinos são substâncias químicas presentes no ambiente, como pesticidas, plásticos e cosméticos, que podem interferir no sistema hormonal.
Alguns deles, chamados obesogênicos ambientais, poderiam favorecer o armazenamento de gordura ao agir sobre receptores hormonais específicos.
Entre os mais estudados estão: bisfenol A (BPA), ftalatos e alguns pesticidas organoclorados.
Causa da obesidade nº 9: o contexto socioeconômico
O nível socioeconômico é um fator determinante que é frequentemente negligenciado:
- As desigualdades de acesso a uma alimentação saudável: produtos frescos e de qualidade custam mais caro do que alimentos ultraprocessados;
- Os “desertos” e “pântanos alimentares”: algumas áreas geográficas não contam com comércios que ofereçam produtos frescos;
- O estresse ligado à precariedade pode induzir comportamentos alimentares compulsivos;
- A pouca prática esportiva em contextos desfavorecidos, por falta de tempo, dinheiro ou infraestrutura.
Essas desigualdades explicam por que a obesidade afeta mais determinadas populações e por que ela não pode ser reduzida a uma simples questão de escolha individual.
Em conclusão, a obesidade é uma doença multifatorial na qual interagem fatores comportamentais, genéticos, hormonais, medicamentosos e sociais. Ela raramente resulta de uma única causa, e seu tratamento deve ser global, personalizado e sem julgamento.


Se você sofre com problemas de peso ou deseja compreender melhor a sua situação, não deixe de conversar com um médico endocrinologista.